João Chendo
Quando entrava na sua Caixa era como se estivesse a abrir a porta de casa. Não admira, afinal as histórias confundem-se. Nas fotografias da inauguração da Caixa Agrícola do Fundão, em 1932, lá estava o seu avô. Por isso, também por isso, cresceu na ideia de que um dia ofereceria o seu contributo. João Chendo é um puro serrano. Pragmático, mas idealista. Para ele não há competição, há cooperação. Tê-lo conseguido provar foi a sua missão de vida.Comecemos então. Em 1985, ano em que aceitou fazer parte da direção da Caixa do Fundão, atual Caixa de Crédito Agrícola Mútuo da Região do Fundão e Sabugal, o seu objetivo era mais modesto: tornar a instituição robusta. Fez um mandato e depois candidatou-se como primeira figura. Seguir-se-iam 26 anos como presidente. Pareceram 26 dias. Integrou o Conselho Geral da Caixa Central e acreditou que o cooperativismo seria reforçado com a união de todas as caixas. Uma união que não feriria a identidade de cada uma delas, sentia que devia isso ao avô. A sua Caixa ajudou muito os agricultores e empresários da região. A financiarem-se, mas também a abrirem horizontes. João organizava, todos os anos, visitas a explorações agrícolas no estrangeiro. O critério era simples, convidavam-se os clientes bons, sobretudo com envolvimento, mas também pessoas e empresas mais modestas, escolhidas por sorteio, numa lógica equilibrada e democrática. Fizeram-se visitas a França, Áustria e aos países nórdicos. Ficou a faltar-lhe a Argentina, viagem que ambicionou promover, mas que ficou na gaveta.Quando saiu da sua Caixa e da Caixa Central, em 2011, vinha desiludido. O declínio das bandeiras do mutualismo e cooperativismo parecia-lhe evidente. A autonomia perdera-se. E começou a custar-lhe muito “encostar à parede” um mutuário por falta ou atraso de pagamento quando, a um outro nível, se gastava à tripa-forra, o que jamais seria prática do passado. Saiu sem olhar para trás, tinha 63 anos e sentia que muita vida ainda lhe corria à frente, existiam mais sonhos para ser sonhados.Passaram 15 anos e Chendo é hoje um ilustre reformado que não falta à sua tertúlia no café de sempre – um lugar central onde tudo acontece, negócios e investimentos também. Por ali passaram muitas vidas, a dele e dos amigos, mas também a dos pais e avós. Faça chuva ou calor, a tertúlia reúne. Juntar é o caminho do progresso, um lema inegociável.O apelido Chendo nasceu em Pêro Viseu, a dois passos do Fundão. Gente de trabalho que se espalhou pelo Brasil, Estados Unidos, Alemanha, França e Suíça. Ou que se manteve ali, naquela paisagem íngreme de uma ruralidade impoluta. Um lugar de enorme beleza natural, com as suas tradições e festas, um recorte historiográfico do povo português. Imaginar a década de 1930, imaginar os fundadores da Caixa Agrícola a juntarem esforços por amor a uma terra onde apenas se chegava a cavalo, sem transportes ou telecomunicações. Imaginá-los, remediados agricultores, a seguirem o que lhes parecia ser o correto. Entre 1911 e 1929, surgiram de norte a sul do país 140 Caixas de Crédito Agrícola, criadas a partir de movimentos associativistas de cariz cooperativo e mutualista. O seu fundamento institucional era o Decreto-Lei de 1 de março de 1911, assinado por Brito Camacho, ministro do Fomento num governo provisório liderado por Teófilo Braga. As caixas eram entidades com atividade limitada ao âmbito concelhio, financiamento da atividade agrícola e distribuição de subsídios estatais à agricultura.A paixão pela terra e a solidariedade entre pares uniu cada um destes fundadores que, com enorme coragem, entregaram o seu património para responder a possíveis dívidas da instituição. Era preciso coragem para o fazer, diz-nos João Chendo para explicar o motivo para se ter contagiado pela ideia romântica de completar o trabalho do avô.Uma longa e bonita vida a dele. Filho de pai comerciante e mãe doméstica, irmão mais novo de dois. Mesmo pequeno, ainda antes de aprender a ler e contar, já destoava da mediania. Obedecia mais depressa à sua consciência do que a algumas regras que os pais lhe impunham. Foi bom aluno, completou o secundário numa escola privada, licenciou-se em Finanças, fez tropa em Cabo Verde e regressou a Portugal no dia em que a colónia deixou de o ser. No dia 5 de julho de 1975 nascia um novo país e um jovem voltava para começar uma nova vida. Trabalhou para a EDP, deu aulas de matemática na Universidade da Beira Interior e sempre adorou viajar. Nunca deixou de o fazer, ainda agora. Vai várias vezes por ano a Espanha, tem uma forte ligação a Salamanca onde a filha se licenciou em Medicina.Sim tem uma filha. E um filho engenheiro. E quatro netos. Todos próximos e orgulhosos do pai e avô que vive na casa onde nasceu, em 1948. Uma herdade em Pêro Viseu com vista para o vale da Cova da Beira, uma terra mágica. Já as vistas da imaginação alcançam a Serra da Gardunha, com os seus rebanhos graníticos e ninhos de casas rústicas cujas origens se perdem nas memórias dos tempos. Um tempo em que as terras férteis formavam um disperso tecido agrícola. Tempos idos, quando a debandada dos assalariados rurais deixou marcas de desertificação, de campos incultos, de isolamento. França, Alemanha e Luxemburgo foram os principais destinos da diáspora. Para quem foi, talvez tenha custado menos. Foi porventura mais difícil para os que ficaram agarrados à enxada. Ou para os que juntaram esforços e cooperaram pelo bem comum. Uma parceria com a Agrimútuo














